O DONO DO RIO

 

Rio,

Meu rio, pois que

apenas eu

te admiro

e dou-te o devido respeito.

Então meu rio

e apenas meu,

por amar-te verdadeiramente.

Meu (pronome possessivo)

pois te possuo

quando abro meus braços,

tentando abraçar-te

em tua imensidão líquida.

E sou teu

quando me tens

em meio às tuas águas

e então,

finalmente,

não me sinto solitário.

 

HISTÓRIA DE UM MENINO PERDIDO

Eu vi um menino brincando,

correndo com a molecada,

rasgando os joelhos no chão.

O menino, moleque travesso,

sorria gostoso,

pulava,

aproveitava o momento

do dia que o iluminava.

 

Eu vi o menino brincando,

brigando,

se apaixonando,

chorando,

e também sonhando,

e como o menino sonhava…

 

Em dado momento assaltou-me

a vontade de brincar com ele,

mas densa neblina nos separava.

E o menino, pobre menino,

sumiu,

como que por encanto,

na amarga nuvem do tempo.

 

POESIA

 

O que flui em mim,

meu sangue,

o que me sustenta,

é poesia.

É poesia que impregna

o ar que respiro,

direciona os meus passos

e ilumina os meus dias.

 

A poesia está ainda

em meu sono,

em meus sonhos,

em minhas noites solitárias

sob a luz da lua.

Há poesia no beijo que roubo

da mulher que eu amo,

no filho que virá a nascer,

no acontecimento que o trará à vida.

 

A poesia vive em mim,

em minhas bêbadas aventuras,

em minhas tristezas,

no brilho dos meus olhos,

do meu sorriso,

que um dia a morte furtará.

E ainda nisso haverá poesia…

 

SÍNDROME DE NARCISO

 

Eu o vejo do outro lado.

Ele sorri para mim,

enfeitiça,

encara-me por longo tempo.

Dá origem a um sentimento

sem igual,

inebriante.

Desvio o olhar,

sinto-me incomodado.

Ao voltar-me ele

continua me olhando.

O mesmo olhar,

o mesmo sorriso,

o mesmo sentimento.

Ele, uma sombra,

um reflexo de mim mesmo.

 

A MUSA DA CHUVA

 

A chuva vem e traz

o que me faltava,

a inspiração roubada,

tão necessária ao poema,

a musa (tão bela) dos meus amores.

Os pingos caem,

intensamente,

criando uma sinfonia

inebriante, extasiante.

 

E o poema vem,

rompendo barreiras,

superando obstáculos.

É a inspiração,

a musa,

soprando idéias em minha mente.

 

A INTENÇÃO DO POEMA

 

Eu pensei em escrever

um poema de amor,

mas sou poeta medíocre

e não conheço tal sentimento.

 

Creio que ficarei

apenas na intenção.

 

NECROPSIA

 

Outro poeta morreu

(como morrem poetas

neste país),

desconhecido,

não lhe votavam

o mínimo valor.

Mas, na hora da necropsia,

quando o legista cortou

seu cadáver

com um bisturi…

Que maravilha!

A poesia fugiu do corpo

inerte

e impregnou o ambiente inteiro.

 

LÁGRIMAS NO AZUL

 

O céu chora suas lágrimas.

Molha a terra pisada,

refresca nosso calor.

As lágrimas caem cantando,

banhando flores risonhas,

criando encantos mil.

 

O céu chora alegria

no correr da meninada

gritando e pulando nas ruas.

As lágrimas adubam o poema

que cresce na mente fértil

e vai encantar outros mais.

 

E o poema…

Ah! O poema…

Este chora as dores do poeta.

 

ASSALTO (I)

 

Tentaram assaltar

um poeta

ele sorriu

e disse ao ladrão:

- Afaste-se,

estou armado.

Então tirou do bolso

                        uma caneta

e um bloco de anotações.

 

ASSALTO (II)

 

- Isso é um assalto! – grita

                        o bandido,

chegando-se ao poeta.

Este, fala

                        calmamente:

- Nada tenho de dinheiro,

irás me roubar poesia? 

 

PRECE

 

São Carlos de Itabira, ajude-me

a encontrar a poesia que me foge,

quando dela muito preciso.

Te peço tão pouco, São Carlos,

a Vós que, encarnado, foi dela

um dos grandes propagandistas

e, sei que agora, em espírito,

tendes com ela mais íntima relação.

 

Ajude-me, São Carlos de Itabira.

Pede à poesia que venha me visitar.

 

CAMINHOS DA POESIA

 

Sou poeta da terra, não nego.

Mas não vou me ater a temas

inerentes à minha região,

por mais belos que sejam.

Não, não, não que eu não queira,

já disse: o poeta

não é dono da poesia.

Nunca chegarei com ela

e direi: vá para lá!

Talvez no lugar em que ela está

sinta-se bem melhor.

Mas, quando necessário,

quando ela assim ordenar

(poesia, soberana de minha vontade,

de meu coração!)

mudaremos seu caminho.

 

Se bem não seria má idéia

cantar minha Amazônia.

UM OUTRO SER

 

Gostaria de ser um vampiro

ou, quem sabe, um lobisomem,

uma criatura noturna.

Sair em busca de sangue novo

e de ,já quase inexistentes,

meninas virgens.

 

Queria ser uma criatura mítica,

dessas que assombram a imaginação

de pequenas e ingênuas crianças.

 

Lástima.

 

Devo contentar-me em ser poeta.

 

NO MANICÔMIO

 

Ontem puseram a ferros

um homem a quem chamavam louco,

só porque este dizia

que não era Napoleão.

 

A cada dia acredito mais

que bem mais louco é o mundo.

 

- Deus, onde iremos parar?

DOCE DELÍRIO

 

Um momento,

um instante no tempo.

O homem pára

e olha ao seu redor:

o mundo,

sua vida,

tornam-se um poema.

Por apenas um momento,

um breve instante,

o homem consegue observar-se

com os olhos de Deus.

Então desperta.

Infelizmente.

os sonhos que revelam

a beleza da criação

não duram para sempre.

 

POESIA LIBERTA

 

A poesia não tem dono,

não pertence ao poeta.

A poesia é livre,

o poeta não.

O poeta sempre estará preso

à poesia.

Esta conduz o poeta,

com a coleira da inspiração,

por caminhos inefáveis

buscando, a qualquer custo,

criar vida no papel.

BREVE INSTANTE

 

A chuva caindo na calçada

é uma música.

O pinga-pinga gostoso

e o vento,

frio,

que adentra no quarto

e arrepia

a costa desnuda

do sonhador.

 

TRILHAS

 

O poeta busca os caminhos

do poema.

Espera

a inspiração-guia

que irá conduzi-lo

ao seu destino.

O poeta espera

o momento da criação.

E os caminhos…

São tantos os caminhos!

O poema,

o poeta,

a inspiração,

o momento…

Na verdade, todos esperam.

A ESTRELA CHOROU AZUL

 

A estrela chorou

uma lágrima azul.

Um azul o qual Rimbaud

não pôde ter imaginado.

A estrela chorou um azul,

que derramou-se

pelo firmamento inteiro.

 

A estrela chorou azul

e pintou os oceanos

daquele azul cristalino

que encanta a deuses e mortais.

O coração da estrela é azul.

O sangue da estrela é azul.

A lágrima da estrela é azul.

 

ACERCA DO AMOR

 

O amor, minha cara,

é sublime,

sublime,

sublime.

Sei que ele fere,

mas sua dor é doce,

suave,

às vezes.

Amor dúvida.

Amor devido.

Amor dádiva.

Amor.

Por favor, minha cara,

não te escondas do amor.

Ama, ama, pois

amando é que se vive.

PROCURA-SE

 

Perigoso elemento foragido,

escapou ontem

                da prisão do coração,

por volta das 19:00 h.

Pede-se cautela aos desavisados,

pois o criminoso,

                vil meliante,

ataca sem piedade.

Sua ficha criminal

é tão extensa quanto o horizonte.

Por ele já tombaram

reinos

                e personagens célebres.

Amor é o nome pelo qual

o indivíduo é vulgarmente conhecido.

Grande recompensa

se oferece

àquele que puder captura-lo.

TERMINAL

 

Minha vida

aventureira

chega ao fim

segunda-feira.

 

BUSCA

 

Onde está a inspiração?

Foge de mim,

                        tão depressa!

Tal como menina arisca

a fugir do meu abraço.

Que venha a inspiração,

                        a musa.

Que venha semear minha mente,

fazer florescer minhas idéias.

Mas não vem,

refulgia-se,

em algum lugar,

                        tão longe,

entre os sonhos e as paixões.

 

NA BEIRA DO RIO GUAMÁ

 

Tarde ensolarada.

Há tempos não vem

a chuva

                        costumeira.

Eu, louco,

cavalgo a solidão,

às margens de um rio,

escutando

o burburinho

                        das águas.

PEQUENO ROMANCE LUNAR

 

O véu da lua acariciou

a face

                        do poeta.

Um sopro suave

de inspiração

varreu seu coração,

                        inebriado

de luar.

O poeta convidou a lua

para uma valsa

                        sobre o mar.

E dançaram como amantes,

e amaram,

e morreram

ao raiar do dia.

 

MOMENTOS DE NOSTALGIA

 

Quando eu era criança, às vezes,

odiava ser criança,

por não poder fazer o que os adultos

faziam. Queria ser adulto.

Cresci como em câmera lenta,

mas cresci bastante.

Hoje, adulto, homem feito,

às vezes odeio ser adulto

por não poder fazer

o que as crianças fazem.

 

Ah! Infância que não volta mais…



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